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CCaç 13 - Biambe

Biambe

A estrada do Biambe

Queré

A velhinha e o galo

O ataque a Biambe

 

O ataque a Biambe - 16/4/1970

 

1970 - Nhamate, quartel construido pela C. Caç. 13, entre Binar e Biambe,

regulando morteiro 81, em abrigo para morteiro, identico ao que existia no Biambi (1)

1970 - Vista aérea do quartel de Biambe. À esquerda pista de aviação, no canto superior esquerdo estrada para a tabanca, e no canto superior direito, entrada principal, e ligação à estrada para Bissorã e Encheia, estrada que corria paralela ao quartel (2)

1970 - Zona à frente da entrada principal do Quartel de Biambe. O ataque de morteiro foi feito pelo PAIGC, partiu do meio do arvoredo ao fundo (1)

 

1970 - Biambe - Balneários (2)

1970 - Biambe - Parada,

ao fundo à direita os balneários (2)

 

A operação realizada contra as bases do PAIGC no Queré de 8 a 9/4/1970, teve como consequência uma retaliação por parte da guerrilha, com um ataque a 16/4 ao quartel do Biambe, onde a CCaç. 13 estava sedeada temporariamente.

 

Os soldados da guarnição de Biambe (CCAÇ 2531), pelas 17 horas da tarde fizeram fila na parada para irem tomar banho, como o faziam diariamente, era importante ir para a bicha, porque às vezes a água não chegava, e tomar banho com aquele calor era uma bênção, pelo que todos se apressavam a tomar o seu lugar. 

 

Eu estava a dar uma aula de português aos soldados africanos, quando se ouviu um conjunto de "pofs" ao longe, os soldados avisaram-me que eram saídas de morteiro, e que nos tínhamos de abrigar nas trincheiras, apesar de não reconhecer aquele som não hesitei, e enquanto os soldados se abrigavam nas trincheiras, desatei a correr desesperadamente para a parada, tentando o impossível - avisar do ataque e conseguir chegar ao outro lado da parada onde estava o morteiro 81, para retaliar. 

 

Consegui chegar à parada e gritar que era um ataque, uns nem se aperceberam do que eu disse, outros olharam-me com um ar de "este passou-se, ataque, não ouvi nenhum tiro ...", um silvo a cortar o ar avisou-me que as granadas tinham chegado, atirei-me ao chão, abri a boca para que a deslocação do ar das explosões não me fizesse rebentar por dentro, e uma chuva de granadas rebentou na parada, fazendo voar estilhaços em todas as direcções, que cortaram os corpos de quem lá estava.

 

Escapei ileso daquele inferno, apenas um estilhaço me tinha rasgado as calças e feito um ligeiro corte na nádega, levantei-me corri para o morteiro, para retaliar.

 

Após aquela chuva de granadas, o ataque "morreu", do nosso lado a reacção imediata partiu  de uma das casernas da CCAÇ 2531, onde um elemento desta companhia respondeu ao ataque com o fogo de uma metralhadora pesada browning. Creio que também existiram tiros de armas ligeiras da parte do IN, mas pareceu-me foi apenas para nos entreter, e enganar, a fim de dar cobertura à retirada do grosso do grupo.

 

Ao chegar ao abrigo do morteiro, encontrei a caixa das granadas fechada de origem, tendo um forte arame à volta, peguei do tubo do morteiro 81, e fazendo dele um martelo rebentei com o arame da caixa, retirei uma granada coloquei-lhe a carga adequada, voltei a montar o morteiro, regulei a pontaria, para o lado esquerdo calculando que devia ser por ali o caminho de fuga, e agarrei na granada para a lançar, consciente de que naquele momento o inimigo já estaria em fuga.

 

Um grupo de soldados da CÇA 13 chegou junto a mim armado, pedindo-me para os liderar na perseguição, e o furriel de armas pesadas Gomes da 2531 também.

 

Numa rápida troca de impressões com o outro furriel concordamos que o inimigo já estava em fuga e que  o caminho de fuga mais seguro para eles, era  pelo lado esquerdo, dei-lhe a granada e pedi-lhe para bombardear aquela zona, de modo a faze-los mudar de direcção, que eu e aquele grupo iríamos, seguir pela estrada e bloquear o caminho pelo lado direito. Ele disse-me que conhecia bem o caminho de fuga por aquele lado, corrigiu um pouco a direcção do morteiro e começou a bombardear.

 

Seguimos rapidamente pela direita, ao chegar ao local colocamo-nos em linha bloqueando o caminho de fuga por aquele lado, e avançamos para a zona de onde tinham partido os tiros de morteiro.

 

Ao chegar a um dos locais de onde tinham partido os disparos, encontrei no chão as marcas onde tinham sido colocados 2 morteiros 60, eram visíveis não só as marcas deixadas pelo prato do morteiro, como pelo tripé, na frente destas estava uma densa mata de arvores que retirava toda a visibilidade sobre o quartel, o que indicava claramente a presença de um especialista de armas pesadas, na operação daqueles morteiros.

 

Normalmente a guerrilha só trazia o tubo do morteiro e o prato, e a inclinação do tubo para fazer o lançamento das granadas, era feita com o alvo à vista, sem rigor, apenas tendo por base a experiência.

 

Era evidente que os guerrilheiros, não tinham sido convencidos a mudar de direcção, começava a anoitecer, e regressamos ao quartel.

 

As baixas referenciados na altura foram 2 mortos, 28 feridos graves e 52 feridos ligeiros, na maior parte elementos da guarnição de Biambi.

 

O ataque desencadeado pelo PAIGC foi muito rápido, mas foi devastador (segundo nos disseram depois, este foi desencadeado por uma unidade de elite, que identificaram como comandos, mas nunca consegui confirmar).

 

O ataque da guerrilha, teve como estratégia a colocação de um elevado número de morteiros de 60mm à volta do quartel, e utilizou uma técnica que consiste em lançar várias granadas de morteiro, para tal retira-se as cavilhas de segurança às granadas, colocam-se 2 homens a lançar granadas em cada tubo de morteiro, de modo muito rápido, assim antes da primeira cair, já várias estão no ar, provocando uma chuva de granadas em segundos.

 

Quando as granadas caíram com uma precisão impressionante na parada, num espaço pequeno (talvez 25m x 25m), foi como se esta estivesse a explodir.

 

A precisão do ataque, apenas foi possível porque alguém andou "a tirar medidas" das distâncias até ao quartel (caminhar em linha recta com passo sempre igual, para permitir medir a distância), além disso era evidente que conheciam os hábitos do que se passava dentro do quartel, assim tinha que existir alguém infiltrado para fornecer estas informações, provavelmente elementos da população ou da própria milícia. A criação de rotinas, é sempre um perigo, pois potencia situações de risco.

 

Este ataque provocaria igualmente graves traumas psicológicos, em alguns camaradas, mas o curioso é eles se terem manifestado na maior parte dos casos após o nosso regresso a Lisboa, nomeadamente através de depressões que se arrastaram por muitos anos, e que ainda hoje se manifestam.

 

Podemos dizer que este foi um ataque que nos atingiu a todos, mesmo os que não ficaram feridos fisicamente,  lembro-me do Valério, o nosso furriel vagomestre, me abraçar a chorar, enquanto me contava com a voz embargada pela a angustia e desespero, o estado em que estavam os nossos camaradas e amigos, em particular o estado do nosso amigo, o furriel Queiroz, que tinha encontrado a caminho da enfermaria, com as tripas nas mãos, pois um estilhaço de uma granada tinha-lhe aberto a barriga.

 

Mendonça outro furriel do meu pelotão, apesar de ser um operacional da companhia, quando cheguei perto dele estava branco, um dos soldados feridos tinha acabado de lhe morrer nos braços, a sua mão tinha segurava com força a mão do soldado, tentando transmitir-lhe a sua força, para ele conseguir aguentar, mas de nada serviu.

 

O furriel Fraga da CCaç 2531, viu o seu camarada e amigo o soldado Virgílio sentado no chão, estava perto da enfermaria, as lágrimas corriam-lhe pela cara num choro que não conseguia controlar.

O Fraga pensou, "Está em estado de choque, deve ser do que viu, nada que um bom abanão não resolva.", e passou do pensamento ao acto.

Ao sentir o abanão, o Virgílio levantou os olhos para ele, e disse-lhe calmamente "É pá, eu estou ferido e tu estás-me a bater!" - então o Fraga percebeu que o amigo gravemente ferido, com o corpo crivado de estilhaços, tinha-se arrastado até ali, e em grande sofrimento aguardava que alguém o ajudasse, e ficou trespassado pelo seu acto, e pelo estado e sofrimento do amigo.

O Fraga pediu-lhe muita desculpa, e levou-o para a enfermaria, o Virgílio aceitou as desculpas e compreendeu a sua atitude, mas quando falei com o Fraga 37 anos depois, ele ainda não se tinha conseguido desculpar a si próprio, e não creio que algum dia o consiga fazer.

 

Anoitecera e os helicópteros não tinham conseguido levar todos os feridos, como não se deslocavam de noite os feridos graves não iam conseguir aguentar.

 

O nosso furriel enfermeiro Silva (a quem chamava-mos Picas), mais os outros enfermeiros, tinham-se multiplicado em esforços para socorrer aquele mar de feridos, mas não iriam conseguir travar o agravar daquela tragédia, com os escassos meios que possuíam.

 

Outros camaradas ajudavam tentando dar animo aos feridos graves, para que estes não desistissem de lutar pela vida, mas sabiam que pouco podíamos fazer para os salvar, caso o nosso pedido de evacuação dos feridos não fosse atendido.

 

Era noite cerrada quando os hélis vieram, foi um alivio, e os feridos lá foram enviados para o Hospital Militar de Bissau.

 

O capitão Goulão que comandava a CCAÇ 2531, e o Capitão Durão que comandava a CCAÇ 13, não estavam no quartel, tinham sido chamados a Bissau, tal como outros comandantes de companhia, e nesse mesmo dia Spínola tinha-lhes anunciado que a guerra tinha acabado, pois o chão manjaco (ia do Biambi até Teixeira Pinto), era agora uma zona pacificada, estando em curso a entrega de armas pelo PAIGC naquela zona...

 

Este ataque precedeu uma outra tragédia, que ocorreu 4 dias depois, com a morte de 3 majores (Passos Ramos, Osório, e Pereira da Silva), a 20/4/1970, quando estes foram ao encontro de guerrilheiros do chão manjaco, para aceitar a sua rendição, mostrando que a guerra estava longe de acabar.

 

Alguns dias antes do ataque, o major Paços Ramos, tinha tido uma pequena conversa connosco no Biambe, a memória já não permite ter a certeza que fosse ele. Quem visitava o Biambe, era ele e o Osório, mas pelo seu "discurso", outros camaradas afirmam que era ele: "Quando virem um "turra" não disparem chamem-nos e convidem-nos a entregarem-se ...", e que acreditássemos que eles se entregavam, a prova é que se estava em negociações com um bigrupo daquela zona, o qual se ia entregar.

 

Aquela conversa pareceu-nos uma conversa de alguém vindo de outro planeta, face à agressividade que tínhamos encontrado na zona, embora já tivéssemos ouvido noticias de guerrilheiros do PAIGC que se tinham entregado. 

 

Inicialmente pensou-se que o ataque tinha partido do bigrupo do PAIGC sedeado no Queré, mas informações posteriores indicaram que o grupo que realizou o ataque partiu do Morés, e que o bigrupo que actuava na zona (Biambe/Bissum) e que era comandado por Incóga, nada teve a ver com este ataque.

 

Na história da CCAÇ 2531, este acontecimento é relatado em duas passagens do seguinte modo:

 

"O período caracterizou-se por uma fraca actividade IN. No entanto é de salientar a flagelação feita ao aquartelamento e povoação do Biambe no dia 16, que não sendo de grande envergadura, provocou elevado número de baixas. Foi de notar a maneira rápida e certeira como fizeram fogo, assim como a sua retirada. É muito possível que tenha sido feito por um grupo especializado que pela primeira vez entrou na zona.

O IN devia ter-se moralizado bastante, porque passados dias esteve tentando resultados idênticos.

Continuou a implantar minas A/P nas bermas da estrada Biambe-Encheia"

...

"Em 16 31º dia de segurança aos trabalhos de reordenamento.

 

Às 17h00, um grupo In, com cerca de 30 elementos, utilizou morteiro 82, morteiro 60, lança granadas foguete e armas ligeiras automáticas, flagelou durante 15 minutos o quartel e povoação de Biambe, causando 02 mortos e 09 feridos graves a elementos da CCAÇ 2531, 03 feridos graves e 03 ligeiros a elementos da CCAÇ 13, 01 ferido grave a um individuo do Pelotão de Milicia, e 07 feridos graves entre a população.

O IN retirou perante a reacção do fogo de manobra das NT com baixas prováveis. A aproximação e retirada foram efectuados pelo lado Norte presumindo-se ser grupo vindo do Queré."

 

Nas listas dos combatentes falecidos no Ultramar, que podem ser consultas no site da  APAV, ou da Liga dos Combatentes, constam os 2 militares falecidos.

 

Nome Batalhão/Companhia Data Falec.
ALBERTINO DE SOUSA AZEVEDO CCaç 2531 16-04-1970
RICARDO GONÇALVES PEREIRA CCaç 2531 16-04-1970

 

Este é um texto deprimente, pois refere um daqueles momentos que queremos esquecer, e teve que ser escrito aos poucos, mas faz parte da nossa história, e teria que estar aqui.


 

Publicado no site em 24/02/2003, e revisto em 21/02/2008 por Carlos Fortunato

Crónica de Carlos Fortunato ex-furriel da CCaç. 13

(1) Fotos do ex-furriel Carlos Fortunato

(2) Fotos do capitão Goulão comandante da CCAÇ 2531

Lista de mortos da APVG (http://www.apvg.pt/index.php)

 


 

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