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CCaç 13 - Biambe

Biambe

A estrada do Biambe

Queré

A velhinha e o galo

O ataque a Biambe

Queré - 8/4/1970

 

No tempo passado no Biambe, para além das habituais patrulhas, destaca-se a operação ao Queré, que não seria apenas uma das habituais operações de incursão, pois deveríamos lá ficar 3 dias, e dormir no Queré durante 2 dias (dias 8 e 9/4), era uma operação arriscada.

 

A última incursão ao Queré tinha sido feito por 2 companhias que atravessaram a zona, uma entrou por um lado e outra por outro, e tiveram combates com o IN durante toda a progressão. Nas rápidas incursões que a nossa companhia tinha feito anteriormente ao Queré, os combates tinham sido uma constante, pelo que tudo indicava que a situação se iria repetir.

 

A guarnição de Biambe (CCAÇ. 2531) veio despedir-se de nós com um abraço sentido, eram bons camaradas e sabiam que era uma operação de risco, mas nós não estávamos muito preocupados, parecia-nos que poderíamos controlar a situação, embora estivéssemos conscientes do que nos esperava.

 

A informação que tínhamos era que apenas existia um bigrupo no Queré, embora reforçado com um grupo de canhões/morteiros (estimado em cerca de 60 a 70 homens), o que nos colocava praticamente em igualdade numérica, ou até com uma ligeira superioridade, pois a companhia tinha na altura perto de 80 homens, por outro lado, o PAIGC tinha por estratégia dispersar-se em vários grupos, para mais facilmente nos localizarem e emboscarem. O terreno tinha muitas zonas com boa visibilidade, pelo que podíamos sempre pedir apoio à avião, e além disso desta vez levava-mos elementos da população (creio que 10) como carregadores, para podermos ter mais munições.

 

O maior risco da operação, era se fossem enviados reforços da zona do Morés, para esta zona, e/ou sermos localizados e cercados/bombardeados durante a noite, de dia o PAIGC evitava grandes concentrações, pois sabia que podíamos contar com a aviação.

 

1969 (?) - Elementos do 3º pelotão comandados pelo furriel Adriano, cercam uma tabanca

 

Partimos de Biambe de noite, atravessamos uma enorme bolanha, que ficava entre a estrada Biambe/Encheia e o Queré, e ainda de noite cercamos o primeiro aldeamento e aguardamos o amanhecer, a esperança era de encontrar guerrilheiros, mas a busca feita ao nascer do sol apenas encontrou mulheres.

 

Foram tratadas com cortesia, sendo-lhes apenas recomendado que abandonassem aquela zona e que passassem a viver junto do quartel de Encheia, pois iríamos destruir tudo, no entanto preservamos as casa e os seus haveres das mulheres presentes, mas todas as restantes tabancas que encontramos vazias foram incendiadas.

 

Soldados portugueses queimam base do PAIGC (3)

 

Apesar de não termos conseguido detectar a guerrilha, ela andava perto e já nos tinha detectado (o que não era difícil face ao fumo dos incêndios), e pouco depois fomos bombardeados com tiros de morteiro, o furriel Queirós, veio junto de mim e disse-me que tinha escapado por pouco, pois tinham concentrado o fogo de morteiro no local onde ele estava, e se não tivesse rolado rapidamente e mudado de local tinha morrido, as calças rasgadas pelos estilhaços e uns ferimento ligeiros atestavam as suas palavras, e como se previa a guerrilha não nos iria dar descanso.

 

Os confrontos sucederam-se, como já tinha acontecido às outras companhias, e ao segundo dia já as munições começavam a escassear, então houve um confronto que nos fez esgotar a quase da totalidade das munições, e que nos obrigou a regressar ao quartel, o qual passo a descrever na primeira pessoa.

 

"Tínhamos acabado de montar uma emboscada junto a uma enorme clareira  (cerca de 500 m de largura), e estava eu a fazer uma necessidade fisiológica, quando oiço um tiroteio infernal, com explosões à mistura.

 

Dirigi-me para junto do meu pelotão, onde assisti a um cenário surrealista, a emboscada que tínhamos montado tinha-se transformado num palco de desafios, com os soldados de pé deste lado, a disparem contra o inimigo do outro lado da clareira, alguns disparavam o ar em desafio, fazendo "téu, téu, retété, téu, téu", outros atiravam granadas de mão, era uma festa.

 

No outro lado da clareira estavam perfeitamente visíveis alguns guerrilheiros, disparavam sobre nós, via-se uma metralhadora pesada assente sobre rodas, as balas assobiavam no ar, e as explosões perto de nós indicavam que possuíam morteiros ligeiros, mas ninguém parecia preocupado com isso, pois a distância dificultava a precisão do tiro.

 

Os oficiais, furriéis e cabos da companhia tinham desaparecido, estava apenas eu e uma companhia espalhada ao longo de 400 metros.

 

Desatei a dar ordens em altos gritos, tentando colocar alguma ordem, mas fiquei sem voz de tanto gritar, e corri para junto do morteiro 60, indicando ao Incada Iocadna qual a inclinação a dar ao morteiro e as cargas de propulsão a colocar, pois aquela distância era a arma mais eficaz, mas mal eu tinha acabado de o fazer, na outra ponta da companhia alguém lança um grito de guerra balanta "u, uuuuuuuuuuu", e toda a companhia avança como um só homem a correr em direcção ao inimigo.  

 

G3, calibre 7,62 (1)

 

Só tinha assistido a algo assim no cinema, os guerrilheiros a disparar com tudo o que tinham para conter aquela vaga de ataque, as granadas rebentavam à nossa volta, mas os soldados de peito aberto continuavam a correr na sua direcção, e a gritarem "u, uuuuuuuuuuu", as G3 colocadas em rajada varriam as posições inimigas, e os mais atrasados faziam "ronco" para ar, repetindo  o  "téu, téu, retété, téu, téu".

 

O Incada Iocna lançou rápida e certeiramente as 6 granadas de morteiro que tinhamos, tentando dar alguma cobertura ao ataque.

 

Após a resistência inicial os guerrilheiros fugiram apressadamente, alcançamos rapidamente as suas posições, mas não encontramos nada de assinalar.

 

No fim um grupo de soldados dirigiu-se a mim, e um deles (Bouca Intambi) num ar dramático abriu os braços e disse, "furriel bala cá tem" (furriel não tenho balas), abri os braços com o mesmo ar dramático e respondi-lhe " bala cá tem , mas fez manga de ronco, téu, téu, retété, téu, téu, não foi ...", ao que ele e os outros se largaram a rir da minha imitação.

 

Perguntei-lhe ainda, "Quanta bala tinha, quando chegou ao outro lado?", respondeu-me "Bala cá tinha", ao que retorqui "E se turra fica lá! Apanhava o Bouca Intanbi com mão ...", mais risos. Depois de uma reprimenda dei-lhe 5 balas do meu carregador, e disse ao Domingos Manfande cuja metralhadora HK 21 se tinha encravado, para tirar as balas da fita metralhadora e  dar 5 balas a cada soldado que tivesse os carregadores vazios.

 

Desencravei a HK 21, mas logo a seguir apareceu-me o  Calabouche com a bazuca partida, numa mão trazia o tubo, e noutra o punho de disparo, esta arma da segunda guerra mundial, passava vida avariada, e desta vez, os parafusos que prendiam o punho, já comidos pela ferrugem, tinham-se partido com o impulso do disparo.

 

Tirei do bolso um fio eléctrico que trazia comigo, para verificar se a arma estava a funcionar, o qual usava sempre que saiamos para o mato, e confirmei com um teste que esta ainda funcionava, pois não tinha sido afectada a ligação eléctrica, e disse-lhe que podia disparar sem problema, e para amarrar o punho ao tubo, com um cordel ou algo do género, era uma guerra mesmo à portuguesa... 

 

Os oficias, sargentos e cabos, apareceram entretanto, e o furriel Marmelo (transmissões) virou-se para mim e disse-me "Fortunato, não me querem deixar ir de férias", e mostrou-me um buraco de bala que tinha atravessado a coronha da sua G3.

 

A explicação do seu desaparecimento e dos outros graduados, era que se tinham reunidos todos para fazer um ponto de situação e planear as próximas acções, mas o fogo da metralhadora pesada, provavelmente uma metralhadora pesada soviética SG-43, a julgar pelos sulcos das rodas deixadas no chão, pelo buraco na coronha da arma, e pela silhueta ao longe ( tratava-se de uma arma de calibre 7,62, com uma cadência de tiro de 650 tiros/minuto, com um peso de 13,6 kgs), tinha sido concentrado no local onde estavam, o que os impossibilitou de se juntarem aos soldados. Apenas o alferes Pimenta, apesar do fogo inimigo, se juntou aos soldados, e foi ele que lançou o ataque, sobre a guerrilha.

 

 

Metralhadora pesada soviética SG-43 (2)

 

Comunicámos via rádio pedindo o envio de um helicóptero, para nos reabastecer de munições, pois muitos soldados tinham os carregadores vazios, e outros poucas balas tinham, mas a resposta foi que não havia helicópteros disponíveis e que face à nossa situação podíamos regressar de imediato.

 

Perguntamos ainda se nos poderia ser dada alguma cobertura aérea, nomeadamente na travessia da enorme bolanha já referida anteriormente, pois praticamente sem munições se nos atacassem seria uma espécie de tiro aos patos, a resposta foi que não havia apoio aéreo disponível.

 

Sem apoio aéreo e praticamente sem munições, valeu-nos a Companhia de Encheia, que ao ouvir a resposta negativa ao nosso pedido de reabastecimento e de apoio aéreo, se ofereceu para nos reabastecer, embora do outro lado da bolanha.

 

Felizmente não tivemos mais nenhum ataque ao atravessar a bolanha, e conseguimos regressar sem mais problemas, mas os guerrilheiros não iriam esquecer aquela operação, e enviariam uma unidade para nos atacar no Biambe uma semana depois (ver crónica "O ataque ao Biambe") .

 

Nós também não nos iríamos esquecer, de que afinal, não podíamos contar sempre com a força aérea.

 

O alferes Pimenta pela sua acção receberia um louvor dado pelo Comandante Chefe, general Spínola.

 


 

 

Publicado em 24/02/2003, e revisto em 04/03/2008 por Carlos Fortunato

Crónica de Carlos Fortunato ex-furriel da CCaç. 13

(1) Fonte da foto - http://www.hkpro.com/

(2) Fonte da foto Gun Pictures.net -  http://www.gunpics.net/

(3) Fonte da foto: http://www.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=ingchrono63

 

 


 

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