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Tenho
fome - 1969
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1969 Bolama - Foto perto da entrada do quartel (1) |
1969 Bolama - Miúdos (1) |
1970 Unche - Outro "alferu", também sempre atento a tudo, e nunca largando a
farda e as divisas (1) |
Estava de sargento de dia e ao chegar junto da porta do quartel, vi dois miúdos
com uns 8 ou 9 anos, descalços, e de tronco nu, a olharem para dentro do
quartel. Um deles aproximou-se e disse-me apenas:
- Tenho fome.
- Têm mesmo fome? - inquiri com um olhar interrogativo, e pouco compadecido,
embora não fosse verdadeiro, ao que responderam ambos abanando a cabeça que sim.
- Então esperem ai. - retorqui.
Tinha ideia de ter lido algo autorizando a entrada de miúdos no refeitório do
quartel, caso sobrasse comida, pelo que fui ler os regulamentos novamente, e
enviei um soldado para saber se havia sobras da comida do almoço; confirmado que
havia massa com fartura e que podia deixa-los entrar, disse-lhes que se
quisessem comer massa, para irem buscar um prato e uma colher, e eles partiram a
correr.
Passado um bocado vieram-me informar que estavam uns miúdos à porta a perguntar
pelo furriel, quando lá cheguei para minha surpresa não tinha dois miúdos, mas
cerca de setenta miúdos, com uma colher na mão e na outra um prato de metal ou
uma lata, a noticia tinha-se espalhado…
Preocupado em deixar entrar tantos miúdos no quartel,
mandei-os formar numa coluna a três, e tentei dissuadi-los explicando que havia
apenas massa para comer, sem qualquer outro acompanhamento, e que tinham que
aguardar quietos e calados ali, ou irem-se embora.
Abandonei o local,
obrigando-os a uma longa espera, para testar o seu comportamento e para
verificar se era mesmo importante para eles a comida.
Confirmada a existência de comida para todos, e vendo o comportamento exemplar
dos miúdos, dei ordem a um soldado africano para os acompanhar directamente ao
refeitório, ficar sempre com eles, e me avisar imediatamente de qualquer problema.
No quartel vivia à cerca de um mês um miúdo também com uns 9 ou 10 anos, que
tinha sido levado para lá para ser protegido, pois tinha denunciado que havia um
guerrilheiro ferido numa tabanca, o que permitiu a captura do mesmo.
Este miúdo cujo nome nunca soube, era conhecido por “alferu”,
porque lhe tinham dado uma farda com as divisas de alferes, e ele dizia
orgulhosamente que era “alferu”.
Ora o nosso “alferu” quando viu chegar aquele grupo, achou que tinham chegado as
suas tropas, e vá de dar as ordens de comando que ouvia todos os dias na parada,
perante o ar surpreso do soldado africano que acompanhava os miúdos, ao
verificar de como elas eram correctamente dadas, e exemplarmente cumpridas.
No caminho para o refeitório, o nosso “alferu” resolveu fazer um desvio para a
parada, e ai fazer uma exibição “à maneira”, assim deu ordens para tocarem os
“tambores” (baterem com as colheres nos pratos ou latas ao ritmo de marcha
militar), e toca de “esquerda volver”, “direita volver”, “marcar passo”, etc.
O desastre era inevitável, o major que comandava o quartel ao ouvir aquele bater
de lata, veio junto à janela e viu aquele desfile militar na “sua” parada, ficou
furioso claro, e pegou no telefone e ligou para o gabinete do posto da guarda,
onde eu estava muito descansado desconhecendo o que se passava, a avisar-me que
me ia dar uma “porrada” (uns dias de detenção ou prisão), e que já vinha falar
comigo.
O major era um sujeito polémico, de quem se contavam muitas histórias a seu
respeito (ter sido preso por desobediência, ter bombardeado a povoação de
Kansembel na Guiné Conackry, etc.), estava sempre com um ar mal disposto, com cara de quem está pronto
para começar uma guerra seja com quem for, era muito exigente em termos de
disciplina e rigor, embora ele próprio pisasse constantemente o risco, este seu
espirito ousado e rebelde, viria a dar-lhe um papel importante no 25 de Abril, e
depois a chefia da casa militar do presidente Mário Soares.

1969 - Carlos Azeredo, Comandante do Quartel de Bolama (2)
Ao entrar no posto da guarda, o major vinha com cara de poucos amigos, até se
tinha esquecido da sua inseparável enorme boina, devia ter-lhe saltado da cabeça
quando espreitou da janela para a parada, pensei eu, mirou-me de alto a baixo à
procura de uma falha no uniforme, e perguntou-me com que autoridade eu tinha
deixado entrar os miúdos.
Citei ao Major os regulamentos, ao que me disse que era
mentira, mas peguei nos mesmos e abri-os na página que referia os procedimentos
a seguir, e que até estava assinada por ele, e expliquei-lhe que todos os
procedimentos tinham sido seguidos, só que o soldado que tinha acompanhado os
miúdos não tinha cumprido as ordens, ao ler os mesmos resmungou a frase da
praxe, “Desta vez
passa, mas para a próxima leva uma porrada.”, e foi-se embora.
Os miúdos lá comeram a massa, e foram repetindo o prato, até ela se acabar.
O
soldado africano que tinha acompanhado os miúdos, levou apenas uma forte
reprimenda minha, embora a fizesse com alguma pena dele, pois tinha a angustia e
a aflição estampada no rosto, sempre à espera que eu lhe dissesse que levar uma
"porrada", e avisei o esperto e vivo “alferu”, de que lhe tirava as
divisas, e o passava a soldado raso, se fizesse mais alguma.
Não serviram de muito as minhas palavras ao "alferu",
porque passados 2 dias encontrei-o triste e sem as suas divisas, tinha sido
despromovido a soldado raso por não se portar bem, mas foi por pouco tempo.
Publicado no site em 15/04/2006, e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato
Crónica de
Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13
(1) Fotos de
Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13
(2) Fonte: livro "Trabalhos e Dias de Um Soldado do Império", Carlos de Azeredo
Web portal: http://portalguine.com.sapo.pt
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